quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"José e Pilar"

Pilar é uma mulher forte, José, um poeta. Ele tem ideias para a arte, ela as tem para a vida. O documentário “José e Pilar” sobre Saramago, Nobel de literatura que morreu em junho de 2010, e Pilar Del Río, sua mulher, jornalista e tradutora, tende a confirmar o ditado que afirma que por trás de um grande homem, sempre tem uma grande mulher.

Saramago e Pilar (à direita), com a equipe por trás do documentário 'José & Pilar' 
Saramago e Pilar (à direita), com a equipe por trás do documentário 'José & Pilar' (Foto: Arquivo pessoal)


“Ele era um intelectual de respeito, com grandes ideias. Cada romance que escrevia partia de uma ideia muito forte. Todo mundo fica cego, a península Ibérica se desprende da Europa, aparece a caverna de Platão, todas as pessoas deixam de morrer, no mesmo dia, na mesma hora. A partir daí se desenvolve e se realiza o romance”, contou Pilar.
“Ele era um intelectual, e eu não. Eu organizava o entorno. Mas com a consciência de que o importante era o intelectual. Porque a vida, e a realização da vida, qualquer pessoa consegue. Mas as pessoas que enriquecem a todos são muito poucas. E Saramago era uma delas.”
No filme, que mostra o processo de escrita de “A viagem do elefante”, passando por sua publicação e o seu lançamento no Brasil, é possível ver a importância de Pilar para Saramago. Ela organiza sua agenda, trabalha como uma assessora, incentiva o marido. Mendes, que demorou quatro anos para fazer o filme, consegue retratar a intimidade do casal, sem ser invasivo. A câmera está ali, os personagens sabem, mas agem naturalmente.
“Pensei em fazer uma história, não um documentário. A história de um homem que está a escrever um livro, que adoece e tem medo de não acabar o livro, e que depois consegue se estruturar”, contou. “Achei que o mais interessante era mostrar o que o escritor Nobel faz. Além do escrever escutando música clássica. Você tem que dar autógrafos, dar palestras, é tudo um saco. É um saco, mas é o trabalho dele.”

'Wall-E' ou Hillary Clinton
O documentário mostra Saramago e Pilar em momentos tenros, como quando assistem à animação “Wall-E”. Ou um Saramago visivelmente emocionado na cena já conhecida em que assiste pela primeira vez à versão para o cinema de “O ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles. Ou o casal exaltado, quando discute sobre política, e o apoio de Pilar a Hillary Clinton, que Saramago desclassifica, em apoio a Obama. Ou ainda em momentos de confissão, quando ele afirma como foi o primeiro encontro entre os dois: ele, escritor famoso, ela, jornalista, 28 anos mais nova.
“Me surpreendi em como ele era alto. Pensei que os portugueses fossem baixinhos”, diz Pilar, enquanto se abraça ao diretor Mendes, que não é exatamente um gigante. “Eu não sabia como era Saramago, não sabia nada dele, da pessoa dele. Somente os seus livros.”
“Fui somente agradecer-lhe”, continuou Pilar. “Sempre faço isso, quando gosto do livro e a pessoa é próxima, seja homem ou mulher: ‘Muito obrigada’, ‘Gracias’. Por ter escrito esse livro que me fez enriquecer”.
No filme, Saramago é espirituoso, engraçado, piadista, inteligente, mas se acha uma pessoa pessimista, sem esperança.
“Ele não era triste”, discorda Pilar. “Podia estar indignado, podia estar chateado, mas não era um homem triste, nem sequer um homem melancólico.”



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