quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Biutiful


     A filha pergunta ao pai como se escreve beautiful, para que a palavra complete seu desenho. Ele soletra b-i-u-t-i-f-u-l e assim ela registra e adjetiva aquele momento simples, cotidiano e bonito de um pai que cuida dos filhos, apesar de todos os pesares. E os pesares são muitos. Uxbal (Javier Bardem, também em Mar Adentro, Vicky Cristina Barcelona, Comer, Rezar, Amar é esse pai amoroso, que tem de lidar com a ex-mulher bipolar, com as dificuldades do submundo de Barcelona, com as lembranças do pai que não conheceu. Mas só faz esse balanço quando sabe que vai morrer. 
Esse emaranhado de escolhas e conjunturas da vida vem na forma do câncer que o aproxima da morte e na forma dos mortos que Uxbal é capaz de ver. Vem impresso na economia informal da cidade, na sua condição de sobrevivente urbano, no imigrante clandestino e no produto pirata, no trabalho forçado e escravo, na perda da legalidade, na consciência pesada por participar de tudo isso, na culpa por não conseguir ser diferente. O forte do filme não é só essa condição desumana de vida, mas a linha tênue entre a dignidade e o desumano das relações, entre a compaixão e a cruel realidade.
Diferente de Babel, o diretor Alejandro González Iñárritu constrói aqui um só personagem e uma narrativa linear. Mas em ambos ressalta a dualidade do ser humano que quer acertar, mas erra o caminho; que quer se reconciliar com o bem, mas escolhe as ferramentas erradas. Uxbal é assim. Um sujeito intenso, sensitivo, conturbado, desiludido. Por isso Biutiful tem uma atmosfera atormentada - e talvez por esse motivo não tenha levado o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (que premiou o dinamarquês Em Um Mundo Melhor), embora Bardem tenha sido o melhor ator em Cannes. O filme é forte e perturbador e por isso a escolha do título me pareceu tão importante e significativa. Há momentos bonitos na vida perturbada de Uxbal; há boas intenções nas escolhas mal feitas do personagem e há beleza na dureza do registro do diretor mexicano. É preciso ler nas entrelinhas e estará escrito assim mesmo: biutiful.
 
DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu
ROTEIRO: Alejandro González Iñárritu, Armando Bo, Nicolás Giacobone
LENCO: Javier Bardem, Maricel Álvarez, Eduard Fernández, Cheikh Ndiaye, Diaryatou Daff, Cheng Tai Shen
México, 2010 (147 min)

Por: Suzana Vidigal (www.cinegarimpo.com.br)

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