segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Férias à francesa em Lyon

Vinte séculos de história. Epicentro gastronômico mundial. Produtora de vinhos de renome internacional. Esses são apenas alguns motivos para conhecer a segunda maior cidade da França e seus arredores

Por Roberta Ristow, de Rhône
Charles Bowman 
Uma das coisas que aprendi durante minha estada na região do Rhône, na França, é que existe algo chamado pré-sobremesa. Foi durante um nada singelo jantar à beira da maior lareira gótica da Europa, datada do século 15, no estrelado La Salle des Gardes, restaurante do Château de Bagnols, castelo transformado em hotel. No total, se contarmos a incrível seleção de queijos e petit-fours servidos pré-café, foram nove pratos. O jantar durou três deliciosas horas. Em uma palavra, resumo a experiência: inesquecível.

Gostar de comer bem e não ter pressa são pré-requisitos básicos para conhecer Lyon e seus arredores. Lá, fast-food simplesmente não existe. O Château de Bagnols, cenário do jantar, fica na região de Beaujolais, a 28 quilômetros de Lyon. Construído em 1217 por Guichard d’Oingt, o castelo manteve suas características originais, como as torres e até o fosso ao redor, é repleto de afrescos renascentistas e tem um enorme jardim de cerejeiras. O local passou por diversos donos até virar hotel, em 1992. Tem apenas 21 suítes, cada uma batizada com o nome dos donos a quem já pertenceu. Todas são decoradas com mobiliário de época e peças exclusivas, como os enormes anjos de madeira do século 17 que adornavam a cama onde dormi, na suíte Dame Charrier de la Roche, onde era a antiga capela do castelo.

A 20 minutos de Bagnols está o vilarejo de Oingt. O lugar é conhecido como Pays de Pierres Dorées, por suas construções com pedras em tons de dourado. A microcidade tem apenas 400 habitantes, ruas estreitas e prédios do século 10. Uma vez lá, não deixe de visitar a antiga igreja, esta do século 14. Do alto da colina é possível ter as mais lindas vistas dos montes de Lyon e Beaujolais. 
Editora Globo
1. Beaujolais - Vinhedos por todos os lados, colinas verdes e paisagens que parecem ter saído de um quadro marcam a região, famosa por produzir vinhos leves e frutados  2. Oingt - Essa cidadezinha medieval é famosa por suas construções douradas do século 10  3. Lyon - A segunda maior cidade da França é sinônimo de gastronomia de alta qualidade  4- Bagnols - O melhor desse vilarejo é o hotel Château de bagnols. O castelo do século 13 te 21 suítes decoradas com afrescos e mobiliário de época
Baixa gastronomia
Quem pensa que apenas de alta gastronomia vive a região está enganado. Os bouchons, restaurantes populares com mesas de madeira e toalhas xadrezes, também são a cara de Lyon. O cardápio é o mesmo há séculos. Não espere nouvelle cuisine – o barato é provar as iguarias da terra, como o tête de veau, a cabeça da vaca, e a andouillette, embutido feito com as tripas do porco. É a comida tradicional dos camponeses, calórica e sempre acompanhada de muito vinho da casa. O nome bouchon surgiu porque os homens chegavam ao restaurante a cavalo e o local oferecia o serviço de escovar os animais. Bouchon é o nome da escova utilizada. Em Lyon, um bouchon recomendado é o Café des Fédérations. Existem muitos bouchons, mas alguns são armadilhas para turistas. À primeira vista não parece, mas os restaurantes estrelados do Michelin e os bouchons têm bastante em comum. Afinal, a procedência dos produtos é a mesma. A região produz as mais finas iguarias. Os peixes vêm de Aix-les-Bains; as caças, de Dombes; as carnes, de Charollais; e os vinhos, de Beaujolais e das Côtes du Rhône.

Por isso, não deixe de conhecer o mercado Les Halles de Lyon Paul Bocuse, local onde os chefs escolhem os melhores produtos para seus restaurantes. Anualmente acontece um concurso, e os vencedores de cada categoria ostentam com orgulho medalhas com fitinhas nas cores da França. Assim fica fácil saber quem é o melhor açougueiro, o melhor queijeiro, e por aí vai. Uma vez lá, não deixe de provar os queijos Saint-Marcellin e Saint-Félicien, tradicionais da região, nem as quenelles, uma espécie de bolinho feito de peixe.

Outro local único é o bar de vinhos Georges Five (o nome é uma brincadeira com o hotel Georges V, de Paris), localizado na Vieux-Lyon, parte medieval da cidade. Conhecer o dono já é uma experiência. Georges da Silva, francês de origem portuguesa, é acelerado. Mistura na mesma frase francês, português, inglês e espanhol. E fala sem parar. Abriu o bar no ano passado para servir vinhos de primeira por um valor acessível. O menu tem 2,2 mil rótulos de 16 países.

A cada noite ele oferece cerca de 25 diferentes vinhos, como o renomado Petrus, a 10 euros a taça. Na noite em que visitei seu bar, além dos vinhos, ele serviu uma iguaria inédita, um saucisson, espécie de salame feito com o vinho Châteauneuf du Pape. Georges me contou que, dependendo do dia, pode se ter a sorte de provar um saucisson de Côte-Rotie, Châteauneuf ou Porto White. Mas nem pense em aparecer no bar sem avisar – ele só recebe clientes com reserva e, mesmo assim, quando quer. Os horários de funcionamento são definidos no mesmo dia.

Na Rue du Boeuf, a mesma do Georges Five, está localizado o Cour des Loges. O luxuoso hotel é uma combinação de quatro casas restauradas que datam dos séculos 14 ao 17, com um lindo pátio interno e decoração contemporânea. Os banheiros foram remodelados pelo arquiteto Philippe Starck.

A localização não podia ser melhor. A pé, é possível explorar toda a Vieux-Lyon, repleta de traboules, passagens semissecretas que atravessam construções medievais e conectam as ruas. Existem cerca de 300 traboules, mas, por serem propriedade privada, apenas 50 estão abertas para visitação. Toda a área da Vieux-Lyon, com as colinas de Fourvière e Croix-Rousse, foi reconhecida em 1988 pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

A história de Lyon começa no ano 43 a.C., muito antes de a França pensar em existir, quando a região, banhada pelos rios Ródano e Saône, foi escolhida pelos romanos para ser a capital das Três Gálias. Dessa época, restaram as ruínas do anfiteatro e do odeon, em Fourvière, que são a mais antiga ocupação romana fora de Roma, e hoje viraram locais de concertos e visitação. Ao lado das ruínas está o Museu Galo-Romano, com acervo que descortina a origem de Lyon. A Croix-Rousse, a outra colina de Lyon, tem história diferente. Ela abrigou a indústria da seda no século 16, principal fonte de renda da cidade então. É possível visitar pequenos ateliês familiares que mantêm a tradição, como o L’Atelier de Soierie, aberto em 1920. O lado mais contemporâneo de Lyon fica em Presqu’île, uma península entre os dois rios da cidade.

Nos arredores está a Fontaine de Terreaux, construída em 1889 por Bartholdi, o criador da Estátua da Liberdade. Perto dali, vale uma visita à moderna Opéra National, prédio do século 19 renovado por Jean Nouvel, em 1993. É a cara de Lyon.
Editora Globo
 
1. À esquerda, a fonte Bartholdi, na Place des Terreaux, na parte moderna de Lyon; à direita, taças de vinho Côtes du Rhône, no bar George Five, em Vieux-Lyon   2. Queijos no Marché Les Halles de Lyon Paul Bocuse e a lareira gótica do século 15 do restaurante La Salle des Gardes, no hotel Château de Bagno

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