sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Nossas viagens na memória, uma colcha de retalhos


 
        
                 O registro de uma viagem na memória é sempre feito por um todo formado por numerosos pequenos detalhes.  Quanto mais numerosos os pequenos detalhes, melhor e mais fortemente ela estará registrada na lembrança.  "Até aí morreu Neves", dirá o leitor: “Isso é comum a todos os indivíduos”.   Esta é uma verdade inquestionável, direi eu.   Mas então, o que nos difere uns dos outros no registro de nossas viagens na memória?   A resposta é simples:  a maior ou a menor capacidade que cada um de nós tem de perceber, captar e registrar justamente os pequenos detalhes.     
                   Pode até ser que todos saibam que um conjunto é formado de pequenos detalhes,   mas o que nem todos sabem é como registrá-los em sua plenitude.   O segredo para alcançar o estágio de plenitude é bem simples: basta exercitarmos nossa capacidade natural de potencializarmos e incentivarmos  nossos cinco sentidos a serviço do registro de seus resultados em nossa memória. 
                  Nada mais é preciso além de atitude, predisposição, sensibilidade e receptividade.   A fórmula simples vale pra todos os privilegiados que nasceram com os cinco sentidos em ordem.  
                    Em  nossa memória as viagens são registradas como se fossem colchas de retalhos: elas podem ser feitas de meia dúzia de quadrados grandes ou formadas pela cuidadosa união de milhares de pequenos quadradinhos.  Ambas são colchas, ambas de retalhos, todas do mesmo tamanho e com a mesma finalidade, mas apenas uma é feita de milhares de retalhos (ou detalhes) de tecidos diferentes e coloridos.
                     É notável a capacidade do ser humano de vencer suas próprias limitações. Um ótimo exemplo disso está nas pessoas que nasceram sem um ou mais dos sentidos. Ou ainda daquelas que os perderam ao longo da vida.  Todas elas -  por aprendizado e necessidade -  acabam desenvolvendo e potencializando os sentidos que lhes restaram e chegam a níveis quase sobre humanos de uso desses sentidos.   Essas pessoas especiais demonstram o quanto é possível potencializarmos nossos cinco sentidos e o quanto aqueles que têm todos os sentidos subaproveitam seu potencial sensorial.   A todos nós sobra capacidade sensorial a ser devidamente explorada.  
                    Em viagens podemos exercitar esse "extra" dos sentidos simplesmente colocando-nos em estado de alerta permanente,  exercitando a concentração e liberando a mente para que todos - em conjunto - alcancem suas plenitude. 


                          Uma viagem sem detalhes é uma viagem incompleta.  E de quantos detalhes precisamos para formar uma boa lembrança?  Isso varia extremamente, já que pessoas são diferentes. “Até aí morreu Neves" (de novo, coitado!), argumentará  o leitor.  "Não há nada mais óbvio e elementar do que uma afirmação dessas", completará, com toda razão.   
                    É verdade,  mas o que “Neves” não sabia antes de morrer duas vezes é que aqueles detalhes tão comuns a todos - ainda que estejam ali dispostos para todos - jamais serão notados e registrados por todos na mesmas proporções.   "Neves" talvez não soubesse os motivos porque dois indivíduos que estejam vendo, ouvindo e sentindo as mesmas coisas no mesmo mesmo lugar jamais registrarão na memória com o mesmo grau de detalhamento. Algumas vezes até sequer registrarão algo. Isso  simplesmente porque seus sentidos estavam no modo "automático". 

                    Os registros de nossa memória -  as lembranças -  são o resultado da impressão de um conjunto de detalhes e de sensações que experimentamos durante vários determinados momentos de uma jornada.    O resultado é aquilo que eu chamo de “essência de uma viagem”.    A essência está justamente nos detalhes, não no todo.  Quanto maior o registro dos detalhes, melhor nossa capacidade de percebê-los, maior sua essência e seu registro na lembrança.
                      Portanto, é no conjunto de detalhes que formamos o todo, e todos os detalhes estão disponíveis para todos igualmente: os mesmos sons, os mesmos odores, as mesmas cores, sabores, tato e paladares.   Quanto mais numerosas as sensações e mais diversos os sentidos forem experimentados simultaneamente, tanto maiores e mais profundas serão as marcas, impressões e recordações.

                      E o que fazer para potencializamos nossa capacidade de percebermos melhor esses detalhes?   É simples: desligando o "piloto automático" Provavelmente muitos de nós já ligamos o piloto automático em viagens.    E o que é exatamente “ligar o piloto automático"?   É nos deixar guiar, é não percebermos os detalhes, desprezarmos a importância dos sentidos deixando-os no modo automático  É não estarmos no comando. Algo assim como quando temos uma atração a ver, depois outra, depois mais outra e ligamos o piloto automático preocupados com o final,  olhando sempre para o alvo, correndo de uma  direção à próxima, sem nos preocuparmos com os detalhes que ficam pelo caminho.    
                 É como se nossa visão se tornasse embaçada, colocássemos protetores auriculares, nos enrolássemos em plástico e puséssemos um pregador nas narinas.  O que está à nossa volta anula-se pela concentração extrema no alvo.  Saimos do ponto “A” para o ponto “B” no modo automático e o que ficou entre os dois pontos foi um espaço vazio.

                         VIAGENS são como a vida: devemos ter um alvo, sempre, mas enxergarmos além dele e ao seu redor. Nossas vidas, assim como nossas viagens - por mais planejadas e orientadas que sejam por melhor que enxerguemos o alvo - são uma natural sucessão de fatos e acontecimentos secundários, de atrações paralelas, ocorrências imprevisíveis, fatos supervenientes e independentes sem nenhuma relação entre si.  São eventos ocasionais não programados, atalhos, recuos e retornos.    São os detalhes que fazem da vida e das viagens algo realmente marcante, inovador, inesquecível.
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Como registramos nossas viagens além da memória?
    
                         OS blogs deixaram de ser os informais “Diários Virtuais Pessoais” -  cujas características fundamentais eram o amadorismo e o perfil adolescente -   para tornarem-se meios sérios, maduros e confiáveis de divulgação de roteiros e informações turísticas.   Sua importância passou a ser tema e objeto de diversos trabalhos acadêmicos, como por exemplo o publicado no livro “Blog: comunicação e escrita íntima na Internet”, de autoria da jornalista Denise Schittine, em 2004, como resultado de sua dissertação de mestrado pela UFRJ, conforme se lê em “O registro da memória através dos diários virtuais: o caso dos blogs”, de autoria de Luciana Moreira Carvalho (Mestre em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Professora do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN) e Monica Marques Carvalho (Mestre em Biblioteconomia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Professora do Departamento de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN). 
                   Silvia Oliveira, Jornalista, especializada em turismo,  Mestre em Turismo pela Universidad de Las Palmas de Gran Canaria, Doutoranda em “Discurso, Desigualdades e Intervenção Social” na Universidad Pablo de Olavide, em Sevilha, na Espanha, blogueira proprietária do “Matraqueando – Viagem e Comidinhas”,  em “Fotografia e mídia digital: o universo blogueiro na construção criativa de destinos turísticos”, publicado no livro “Discursos Fotográficos”, da Universidade Estadual de Londrina - em cujo trabalho o FATOS & FOTOS de Viagens foi honrosamente citado e destacado, “analisa o discurso conduzido pelos blogs de viagem através de textos e fotos. Verifica a influência dessa mídia digital na construção da realidade da imagem turística. Mostra como é feita a construção de cenários através da publicação cotidiana nos blogs. Busca apontar estratégias discursivas e temáticas, relacionadas ao retrato do turismo através da fotografia. Discute o movimento das idéias em torno da blogosfera.”
                         Eu não consigo imaginar-me viajando sem fotografar. Tampouco sem escrever. Todavia, fotografias e filmes são fáceis de se fazer e compartilhar. Basta clicarmos, passarmos para o computador o resultado e depois subirmos para aquele álbum virtual na Internet.  Todavia, relatar uma viagem é muito diferente, é quase um doloroso exercício de buscar na memória os registros que fizemos dela e passá-los para um papel ou computador. Escrever sobre uma viagem é trazer em mínimos detalhes aquilo que vivenciamos.  E aí é que os detalhes fazem a diferença.  Não importa onde, registramos nossas viagens até num Moleskine, num caderninho, em fotos, em vídeos, desenhos, escritos, num lap top, no celular, num palm top.

               Eu, que sofro intensamente com essa dificuldade (tirar da memória e passar pro papel), portanto me solidarizo, parabenizo e homenageio a você, blogueiro, que compartilha  suas próprias viagens e a de outros viajantes em seus respectivos blogs com toda a comunidade de viajantes e de leitores! É um trabalho fabuloso. Parabéns,  Grande trabalho!

Por: Arnaldo -  Interata
www.interata.squarespace.com

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