sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Na corrida pela classe C

Carlos Alberto Amorim Ferreira é presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav Nacional)
Passagens aéreas agora podem ser compradas em supermercados, redes de lojas varejistas e, em breve, quem sabe até em farmácias. Depois desses anúncios, acredito que nada mais vá nos surpreender. E o discurso ao anunciar acordos deste tipo é sempre o mesmo: facilitar o acesso da classe C ao transporte aéreo em detrimento às passagens rodoviárias.
Sabemos, entretanto, que há muito mais por trás de ações como essas. Há um desejo ávido por lucro. E na ânsia de atrair o cliente para a compra de bilhetes aéreos, pouco importa para a companhia se este novo consumidor está preparado para formular uma viagem de forma independente. Isso não é preocupação. O que vale é mostrar ao acionistas uma rentabilidade crescente.
Claro, não podemos impedir que isso aconteça. Quem é dono de um produto pode vendê-lo onde quiser. Mas me pergunto se comprar turismo é tão simples assim, se é possível adquiri-lo e levá-lo para casa sem maiores orientações, como se fosse uma TV, onde basta ler o manual e instalar tudo sozinho. Me pergunto ainda se isso é bom para este novo consumidor, que não é experiente na arte de viajar.
Nós, agentes de viagens, também queremos atingir esta nova classe média que surgiu nos últimos anos e passou a consumir o turismo. E para isso, cada vez mais, temos que criar e recriar, nos capacitar, nos adaptar e readaptar ao mercado para facilitar a realização do sonho de viajar. Também queremos aumentar nossa receita, mas ao contrário das empresas aéreas, nós primamos pelo consumidor e estamos lá para orientar, escutar, discutir e planejar com cuidado e segurança cada etapa da viagem.
Buscamos, ainda, oferecer vantagens competitivas e os mesmos preços praticados pelas empresas através da internet, mas as companhias aéreas não permitem isso. Quem quiser atendimento humano, ou seja, consultoria e orientação, que pague mais caro. É assim que estas empresas pensam.
A questão que fica no ar é de que forma será feita essa comercialização. Sabemos que é ilegal a venda de produtos turísticos por lojas varejistas ou supermercados. Logo, as empresas aéreas terão que contratar novos funcionários para trabalhar nos postos de venda criados. Mas será que o custo para criar essas estruturas de vendas compensa o possível lucro? Não seria mais econômico e inteligente deixar os agentes fazerem esse papel? Começo a acreditar que o desejo incessante por lucro tirou a capacidade de raciocínio lógico dos empresários.
Talvez, quando os balcões do Juizado Especial que foram instalados nos principais aeroportos entrarem em colapso diante de um aumento não previsto de queixas e reclamações; quando os processos junto às Procuradorias de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) estaduais forem imensuráveis, alguém tome uma atitude em defesa do consumidor. Por enquanto, o circo está só se armando.


Fonte: www.mercadoeeventos.com.br

Nenhum comentário: