sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Viagem à roda do meu quarto - Xavier de Maistre




A obra
Publicado em 1794, Viagem à roda do meu quarto é uma das obras centrais para a formação do romance moderno. O mesmo século XVIII que assistiu à grande renovação literária operada por escritores de língua inglesa como Jonathan Swift, Henry Fielding e Lawrence Sterne, viu também a renovação da prosa francesa, como no caso deste clássico de Xavier de Maistre, e de Expedição noturna à roda do meu quarto (1825), sua continuação, que a Estação Liberdade editou em 1989, já com a consagrada tradução de Marques Rebelo.
Machado de Assis, por meio de seu “defunto autor”, no Capítulo I de Memórias póstumas de Brás Cubas escreve: “Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser.” Essa é a dívida que tem o nosso maior romancista para com o escritor francês, que publicou a presente obra quando a França transitava para o romantismo. Este romance aponta para a ruptura com a concepção clássica então vigente, apostando na renovação formal, na dimensão trágica e na comicidade, nas tensões e contradições do indivíduo (incluindo a consciência da personalidade dividida, tema central para todo o romantismo) que se tornam elementos centrais da estrutura narrativa.
Uma espécie de monstruosidade lingüística, composta de traços aberrantes, sentimentos ridículos embalados por idéias megalômanas, a sátira filosófica contundente, tudo isso vai tornando este romance, além de uma gargalhada em relação aos outros livros de viagem, uma divertida e moderna expressão do descontentamento com o cotidiano burguês.
        

Trechos
“Nas longas noites de inverno, é algumas vezes agradável e sempre prudente nela nos recostar-mos indolentemente, longe do fragor das assembléias numerosas. — Uma boa lareira, livros, penas; quantos recursos contra o tédio! E que prazer, também, esquecer os livros e as penas para atiçar o fogo, entregando-se a alguma doce meditação, ou compondo umas rimas para alegrar os amigos! As horas então deslizam sobre nós, e caem em silêncio na eternidade, sem nos fazer sentir a sua triste passagem.”  
(p. 5)
“Percebi, por diversas observações, que o homem é composto de uma alma e de uma besta. — Estes dois seres são absolutamente distintos, mas de tal modo estão encaixados um no outro, ou um sobre o outro, que é preciso que a alma tenha uma certa superioridade sobre a besta para estar em condição de distinguir-se.”  
(p. 7)
“Tenho feito não sei quantas experiências sobre a união dessas duas criaturas heterogêneas. Por exemplo, reconheci claramente que a alma pode fazer-se obedecer pela besta, e que, em deplorável contrapartida, esta obriga muitas vezes a alma a agir contra a sua vontade. Em regra, uma tem o poder legislativo, outra o poder executivo. Mas estes dois poderes contrariam-se muitas vezes. — A grande arte de um homem de gênio é saber educar bem a sua besta, a fim de que ela possa seguir sozinha, enquanto a alma, livre desse penoso relacionamento, possa elevar-se até o céu.” 
(p. 8)
“Não, o meu amigo não entrou no nada; qualquer que seja a barreira que nos separe, hei de tornar a vê-lo. Não é num silogismo que eu fundo a minha esperança — o vôo de um inseto que atravessa os ares basta para me persuadir; e muitas vezes o aspecto do campo, o perfume dos ares, e não sei que encanto derramado em torno de mim, elevam de tal modo os meus pensamentos que uma prova invencível da imortalidade entra com violência na minha alma e a ocupa inteira.” 
(p. 26)
“Vós a quem o amor teve ou tem ainda sob o seu império, aprendei que é diante de um espelho que ele afia os seus dardos e medita as suas crueldades; é aí que ele ensaia as suas manobras, que ele estuda os seus movimentos, que ele se prepara de antemão para a guerra que ele quer declarar; é aí que ele se exercita nos olhares meigos, nos pequenos fingimentos, nos arrufos astutos, como um ator se exercita em frente de si próprio antes de se apresentar em público. Sempre imparcial e verdadeiro, um espelho patenteia aos olhos do espectador as rosas da mocidade e as rugas dos anos, sem caluniar e sem lisonjear ninguém — é, entre todos os conselheiros dos grandes, o único que lhes diz constantemente a verdade.” 
(p. 32)
“Éramos felizes pelos nossos erros — e agora: Ah! Já não é nada disso! Fomos obrigados a ler, como os outros, no coração humano; e a verdade, caindo no meio de nós como uma bomba, destruiu para sempre o palácio encantado da ilusão.” 
(p. 42)

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